16.11.09
EU VENTO E CANTO UM LILÁS QUE TOCA O SENTIMENTO
Parceria de Georgette Silen e M. D. Amado
— Tempestades e trovões?
— Não, por enquanto só ventos e assovios
— Quando será que chegam os acordes? Esse vento não canta há mais de semana. Tenho saudade das notícias que trazia. Das formas que ele molda na areia da praia. O que você consegue ver do céu agora?
— Do real que me cerca ou do metafórico que me invade?
— A realidade não me satisfaz mais… Sabes que meus olhos enxergam apenas as cores do imaginário.
— Se é do imaginário que necessita, então posso afirmar: o céu traz a cor de um dia que projeta seus anseios e desejos, mas que teme a incerteza das monções que ainda podem nublá-lo pela inconstância.
— Será que essa cor é a que ouso imaginar em meus devaneios? Que vocês chamam de lilás… Eu chamo de sonho… Ah, como eu queria uma vez apenas ver a cor de teus olhos, ainda que nublados pelo meu medo.
— O lilás, sonho de seus devaneios colore a palheta que avisto com a cor dos meus olhos que não sabes identificar… Será por que as pálpebras se fecham em deleite, ou por que querem reter a ilusão, despertar a maré das curiosas marolas que revoltam o pensamento aguçado pelo desejo impossível?
— Nada mais impossível, no meu caso, que reter a ilusão… Pois é dela que sobrevivi até hoje. Mesmo agora, que me faltam poucas horas para partir, vivo esse canto improvisado da chuva que ouço na janela. Impossível… O que é impossível para essa mente, que sempre contou histórias mentirosas? Que enfeitou a imobilidade e a cegueira com os movimentos dos braços que sempre me acolheram?
— Nesse caso, seja então o viajante primeiro das palavras que conta. Desliza pelos fonemas, adere ao sujeito, renega o predicado inexistente, faça do verbo sua maior motivação? Desejo? Não… Desejar é o correto… Pois com isso verás que o céu, onde quer que estejas, terá o tom e o sabor com que pintá-lo. E os olhos que povoam sua mente, inconscientemente o acalentarão com os braços que nunca te abandonaram.
— Tuas mãos… O toque de tuas mãos seguirá comigo, e disso podes ter a certeza. O amor que me nunca me prometeu, invadiu meu corpo por todos esses anos. A companhia que nunca te pedi sempre me fez mais humano. Se nunca me revoltei com aquele que criou os ventos que sempre cantaram para mim, foi porque tua vida nunca deixou a minha. E ai eu vi o motivo e a razão de tudo… Sem você eu não seria nada além de um cego paralítico… E hoje vou embora, como um homem. A chuva está diminuindo… O vento parou de cantar… Ou sou eu que começo a deslizar do mundo? O negrume que sempre encontrei agora é cinza… Vejo tons de cinza em volta de suas mãos… O teu rosto é tão…
— Meu rosto é o mesmo, mas que agora verte a dor de vê-lo livre, a partir. Sei que estás inteiro, mas deixa em minha alma partes rasgadas, riscadas pela grafia de suas memórias… Nunca me pediste nada, mas nunca lhe neguei nem mesmo a ausência de seus desejos mudos… e mesmo agora, na despedida, não lhe negarei aquilo que mais preza…. Ouça a música dos ventos. O som agora é outro… Pois outro você é.
http://entreelasumamado.blogspot.com/2009/11/eu-vento-e-canto-um-lilas-que-toca-o.html



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